sábado, 8 de dezembro de 2012

Me dá esse dom





A velocidade com que elas se configuram
No quadro negro dos meus pensamentos;
Um mundo de ideias, o mundo das ideias
Elas vêm, vão, ficam, sempre estão lá
Mexem-se, pulam, pululam
Formam formas, conceitos, consertos, concertos
Abstratos, concretos, congênitos
Todas essas são estas e o tempo todo estão
E querem sair por estes perigosos órgãos
Língua, lábios: humanos e perigosos que são
Controle essas vibrações, para que eu possa libertá-las

[...]

São lindas!
Palavras são metafísica
Signos que se movem fazendo ponte
Do Real para esta abstração
E vêm me trazer o gosto de contemplar
Em pequenas porções finitas
A Infinita grandiosidade dessa morada
Fonte de tudo
Traga-as para mim na ordem do teu sintagma
Para que meus perigosos órgãos não as
Manipule conforme a minha condição

Ah...! Me  esse dom?!

(Escrito em 2006)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Microcosmo (2007)


Da minha mãe nasci
Nas veias, urucum
No ritmo instintivo
Ego sum


Ai, ego sum em romantismo
Lamentos submetidos a paixões


Mas pode estar aqui a solução, ou não
Arrogante ego sum. Pobre da razão


Meu pai, meu gen, minha origem então
Que será já foi; não lá, nem depois
Aqui eu sou.


(Poema escrito em 2007, no auge da estupidez)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Enquanto ela vai


Eu era pouco quando não sabia o que era ela
mas sentia muito porquanto ela pulsava
Queria saber pouco, mas perguntava muito
Queria pouco de tudo, mas perdia a alegria
enquanto ela ia

Queria saber, mas eu era muito pouco
e sentia mais, embora ela, enfraquecida, me deixava
Então eu quis saber muito, mas perguntava pouco
Queria a chama, sempre perdida, posto que era chama
Enquanto ela foi

Embora me queira, sei que sou pouco, pouco sei de mim e de tudo
Sinto pouco e penso muito, porquanto ela me tenta
Agora sei perguntar e então quero saber mais
Quero o tudo do muito pouco, pois ela vem
Enquanto ela vai

A falta que ela faz não é saudade, é nostalgia, porque é além do que eu sinto.

Poetas de verdade


Os textos que eu coloco aqui que não são meus são a verdadeira poesia. Os meus são apenas externalizações. Que fique claro! rsrs

Esse de hoje é da Adília Lopes (foto ao lado), uma poeta portuguesa cujo início da vida literária é da década de 80 (ela é viva e ainda publica). Ela trata com ironia e clareza de temas cotidianos - principalmente femininos -, modernidade, erotismo, política etc. Tudo com muita simplicidade e lucidez.

Ela não é geniaaaaal, como os tradicionais que a gente admira por aí, mas vale a pena conhecê-la. Eu, particularmente, passei a admirá-la, ontem (rs), principalmente depois de saber que ela achou a cura pra depressão profunda dela no mundo das letras. Ela estudava Física, mas teve que deixar os estudos por causa da doença e passou a escrever; então se recuperou e foi fazer faculdade de Letras! Aeee. Fiquem com "No more tears" (rock n' roll, né?), poema do livro O Decote da Dama de Espadas, de 1988.


Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more teras disse Johnson&Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos mais usar
shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Eu tive que falar da minha vida
Sem saber se a sabia
Como era, que gosto tinha
Ela me inventou pra eu não me saber
E o que eu respirava, eu respondia pra você

Mas a vida que eu não sabia me queria
Disso você não quer saber
E eu não saberia lhe responder
Eu só sinto que é eterno
Eu não me sei, mas eu me quero

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Retângulo

Aqui onde eu vivo
é pequeno e escuro
o chão é mui duro
e muito seguro

Minha roupa é a mesma
ontem e amanhã
meu nome é Depende
nome é convenção

Como todo dia
arroz e feijão
o cheiro é bom
mas o gosto não

Música é só uma
não tenha batida
só a melodia
de instrumento agudo

Não há tranca alguma
me agarro ao escuro
e ao chão que é duro
e muito seguro

São quatro paredes
três delas de aço
outra de cortina

A cortina é fina
e fácil de abrir
sei porque tentei

E o que eu vi era tão claro, bom e aberto
Era tão saboroso, ritmado e colorido
tão bonito, cheiroso e livre
que voltei

pra cá onde eu vivo
que é pequeno e escuro
o chão é mui duro
e muito seguro

domingo, 8 de março de 2009

Deixa pra lá, João,
Que você não é disso
Desse compromisso
Sem vida e sem razão

Desaprendeu a admirar
Pois a luz branca, fria
De tão falsa e vazia
Faz de você um mortal

Procure uma saída
Prum semblante sincero
E ache no seu sorriso
A margem de algum rio

Vai conhecer o Sol
Queira se queimar
Porque ele te fará
Conhecer seu suor

Chega de sacrifício
Ofereça tua carne
Ao teu espírito e só
Que o tempo aqui é preciso

Agora ouça bem
A melodia é sua
Toca pra mim a música
Que diz quem você é