
Os textos que eu coloco aqui que não são meus são a verdadeira poesia. Os meus são apenas externalizações. Que fique claro! rsrs
Esse de hoje é da Adília Lopes (foto ao lado), uma poeta portuguesa cujo início da vida literária é da década de 80 (ela é viva e ainda publica). Ela trata com ironia e clareza de temas cotidianos - principalmente femininos -, modernidade, erotismo, política etc. Tudo com muita simplicidade e lucidez.
Ela não é geniaaaaal, como os tradicionais que a gente admira por aí, mas vale a pena conhecê-la. Eu, particularmente, passei a admirá-la, ontem (rs), principalmente depois de saber que ela achou a cura pra depressão profunda dela no mundo das letras. Ela estudava Física, mas teve que deixar os estudos por causa da doença e passou a escrever; então se recuperou e foi fazer faculdade de Letras! Aeee. Fiquem com "No more tears" (rock n' roll, né?), poema do livro O Decote da Dama de Espadas, de 1988.
Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more teras disse Johnson&Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos mais usar
shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar