quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Enquanto ela vai


Eu era pouco quando não sabia o que era ela
mas sentia muito porquanto ela pulsava
Queria saber pouco, mas perguntava muito
Queria pouco de tudo, mas perdia a alegria
enquanto ela ia

Queria saber, mas eu era muito pouco
e sentia mais, embora ela, enfraquecida, me deixava
Então eu quis saber muito, mas perguntava pouco
Queria a chama, sempre perdida, posto que era chama
Enquanto ela foi

Embora me queira, sei que sou pouco, pouco sei de mim e de tudo
Sinto pouco e penso muito, porquanto ela me tenta
Agora sei perguntar e então quero saber mais
Quero o tudo do muito pouco, pois ela vem
Enquanto ela vai

A falta que ela faz não é saudade, é nostalgia, porque é além do que eu sinto.

Poetas de verdade


Os textos que eu coloco aqui que não são meus são a verdadeira poesia. Os meus são apenas externalizações. Que fique claro! rsrs

Esse de hoje é da Adília Lopes (foto ao lado), uma poeta portuguesa cujo início da vida literária é da década de 80 (ela é viva e ainda publica). Ela trata com ironia e clareza de temas cotidianos - principalmente femininos -, modernidade, erotismo, política etc. Tudo com muita simplicidade e lucidez.

Ela não é geniaaaaal, como os tradicionais que a gente admira por aí, mas vale a pena conhecê-la. Eu, particularmente, passei a admirá-la, ontem (rs), principalmente depois de saber que ela achou a cura pra depressão profunda dela no mundo das letras. Ela estudava Física, mas teve que deixar os estudos por causa da doença e passou a escrever; então se recuperou e foi fazer faculdade de Letras! Aeee. Fiquem com "No more tears" (rock n' roll, né?), poema do livro O Decote da Dama de Espadas, de 1988.


Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more teras disse Johnson&Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos mais usar
shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Eu tive que falar da minha vida
Sem saber se a sabia
Como era, que gosto tinha
Ela me inventou pra eu não me saber
E o que eu respirava, eu respondia pra você

Mas a vida que eu não sabia me queria
Disso você não quer saber
E eu não saberia lhe responder
Eu só sinto que é eterno
Eu não me sei, mas eu me quero

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Retângulo

Aqui onde eu vivo
é pequeno e escuro
o chão é mui duro
e muito seguro

Minha roupa é a mesma
ontem e amanhã
meu nome é Depende
nome é convenção

Como todo dia
arroz e feijão
o cheiro é bom
mas o gosto não

Música é só uma
não tenha batida
só a melodia
de instrumento agudo

Não há tranca alguma
me agarro ao escuro
e ao chão que é duro
e muito seguro

São quatro paredes
três delas de aço
outra de cortina

A cortina é fina
e fácil de abrir
sei porque tentei

E o que eu vi era tão claro, bom e aberto
Era tão saboroso, ritmado e colorido
tão bonito, cheiroso e livre
que voltei

pra cá onde eu vivo
que é pequeno e escuro
o chão é mui duro
e muito seguro

domingo, 8 de março de 2009

Deixa pra lá, João,
Que você não é disso
Desse compromisso
Sem vida e sem razão

Desaprendeu a admirar
Pois a luz branca, fria
De tão falsa e vazia
Faz de você um mortal

Procure uma saída
Prum semblante sincero
E ache no seu sorriso
A margem de algum rio

Vai conhecer o Sol
Queira se queimar
Porque ele te fará
Conhecer seu suor

Chega de sacrifício
Ofereça tua carne
Ao teu espírito e só
Que o tempo aqui é preciso

Agora ouça bem
A melodia é sua
Toca pra mim a música
Que diz quem você é

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Me deixa chorar

o choro é imoral
é um discurso mudo
tão imoral
tão poluído

eu choro um choro lúcido
cheio das chacotas de uma realidade libertina e tirana
que interage com a minha mente insana
e iludidamente lúcida

eu choro um choro vazio
que anseia por um sonho
que alimenta uma esperança
que alimenta uma vida a fio

Eu choro porque o choro é um recurso
Para lavar meus olhos
Desse mundo surdo
Esse surdo mundo

Mas eu choro também
Porque meu corpo transborda amor por você
Porque se mesmo com tanto mal ainda faz sentido amar
Então é útil viver